A relevância dos jornais impressos

10, julho, 2010 Bruno Sem comentários

Os periódicos impressos, especialmente os jornais, enfrentam uma severa queda em vendas e circulação. Este movimento acontece há alguns anos e tem como principal responsável a internet, que está mudando o ritmo e a forma de consumir notícias. Com sua eventual e já anunciada extinção, que falta fazem os jornais impressos?

Os jornais hoje são responsáveis por enorme parte da da criação autêntica de conteúdo, sendo que sua ausência deixaria os replicadores de notícias com menos fontes a recorrer. Os impressos também agregam notícias, colunistas, editores e fontes de maneira única, transmitindo – por mais imparcial que o veículo seja – uma opinião e uma visão de mundo no conjunto das publicações. Ainda é muito difícil reunir conteúdo de fontes diversas com a mesma qualidade que fazem os impressos, por mais que este conteúdo exista.

O consumo de escolha e por demanda pode implicar no estreitamento da visão do leitor, que não tem estímulo em buscar novas ou diferentes opiniões quando é limitado ao seu agregador de notícias. Os jornais impressos também entram em um nível de detalhe que as outras mídias ignoram, e utilizam um estilo culto de escrita que é exclusivo às suas páginas e incentiva os leitores a maior erudição.

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Vida Sintética

24, maio, 2010 Bruno Sem comentários

Após uma década de pesquisas e muitos milhões de dólares, cientistas conseguiram criar uma célula viva a partir do zero, de forma completamente sintética, que foi capaz de sobreviver e se multiplicar de forma saudável. É o cume de uma série de avanços polêmicos na biologia que incluem a clonagem e a criação de vírus sintéticos; o design-inteligente da vida inconteste: aquele executado pelo homem.

Este avanço na ciência pode proporcionar novas formas de tratar doenças e outros problemas de saúde, além de acelerar pesquisas que buscam entender características de nossa espécie que remontam às suas origens. Mas o avanço mais significativo talvez resida nas possíveis capacidades industriais da tecnologia. Modelando sequências de DNA novas, é possível criar organismos vivos utilitários para atender a fins específicos; formas de vida sem qualquer precedente na natureza. Desta necessidade, podem surgir linguagens de programação e blocos de construção lógicos para o DNA, que delimitem práticas necessárias para seu correto funcionamento e facilitem seu desenho.

Quais são os limites de composições para esta vida que conhecemos, que se deriva em formas tão diversas quanto bactérias, ossos e madeira? Quais materiais e funções, em tão diversas escalas, podemos modelar através do DNA? Talvez em um futuro próximo formas de vida revelem-se materiais mais interessantes do que o concreto, e os militares criem monstros com o fim específico da guerra.

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O Irã e a mídia

25, abril, 2010 Bruno Sem comentários

Os norte-americanos classificam o Irã como parte do “eixo-do-mal”, e a cada nova suspeita de desenvolvimento de tecnologia para fabricação de armas nucleares, o país é taxado de “ameaça ao mundo”. A maior parte do ocidente e sua mídia repete os bordões livremente, comentando sobre o país em tom grave. Afinal, será o país de Ahmajinejad um país mal, uma ameaça ao mundo?

Ao recusar o holocausto como por vezes fez, Ahmajinejad representa uma ameaça para o mundo ou para os judeus? E em suas políticas totalitaristas e nada democráticas, o presidente do Irã é um problema para o mundo ou para o próprio povo? Qual ameaça o Irã representa, por exemplo, para o Brasil, em qualquer horizonte conhecido? Talvez o Irã seja uma ameaça ao mundo por causa do suposto desenvolvimento de armas nucleares, mas o que dizer então das super-potências que acumulam estoques destes armamentos há anos, possuem potencial pleno para desenvolver mais, e podem até mesmo estar desenvolvendo mais ogivas nucleares atualmente?

Se o acordo de não-ploriferação nuclear beneficia os países que já possuem armas nucleares e amputa os países que ainda não as tem, é uma ameaça contra quem, exatamente, ignorá-lo? Por que o Irã, em suas bravatas contra Israel, é mais ameaça ao mundo que os EUA, em sua suspeita jornada contra o terror, que culminou na invasão do Iraque contra a decisão do conselho de segurança da ONU, e com base em falsas evidências?

Por fim, é possível considerar sério um veículo de notícias de um país democrático que toma lado neste embate ideológico?

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Breve história do nosso idioma e da tecnologia

28, março, 2010 Bruno Sem comentários

Naqueles tempos, poucas pessoas possuíam um computador em casa no Brasil. O equipamento já havia adquirido status de item de luxo entre os eletrodomésticos, mas sua real utilidade no cotidiano ainda era questionada. o computador ainda era, para todos os efeitos, supérfluo.

Isto foi há 15 anos atrás. A internet se esgueirava tímida nos primeiros comerciais. Os poucos provedores disponíveis, como o gigante norte-americano AOL (América Online) e o recém criado brasileiro UOL (Universo Online), disputavam usuários com as BBS (Bulletin Board System), sistemas simples de texto-puro, isolados cada qual em sua própria rede de usuários, e mantidas muitas vezes por uma só pessoa.  Não demorou muito para a internet se popularizar, e junto a ela os primeiros softwares de comunicação via internet, como o ICQ e o IRC. Foi neste cenário em que começou um dos maiores processos de mudança que a língua portuguesa sofreria nas últimas décadas.

Como não era possível utilizar acentos na maioria das aplicações estrangeiras, desenvolvendo-se por necessidade o uso de palavras que imitam a fala, como o naum e o eh. O que na época era uma solução linguística para uma limitação tecnológica, propagou-se como uma gíria para a nova geração - que sequer conhece a história e dispõe de acentos em profusão nas aplicações modernas.

Foram a internet e os celulares que trouxeram as abreviações exdrúxulas – muitas vezes baseadas apenas em consoantes - para a língua, como vc e tc. A primeira, devido à alta velocidade que imprime nos diálogos de comunicadores instantâneos, provocando o encurtamento do diálogo e o menor cuidado com o texto. O segundo, pela inconveniência do minúsculo teclado numérico agrupado, além da limitação do total de caracteres.

A tecnologia também trouxe uma avalanche de estrangeirismos para a língua portuguesa, alguns dos quais ganharam um lugar ao sol nos dicionários, como o famigerado deletar.

Essas mudanças são vistas com olhos suspeitos pela maioria dos literatos e profissionais da língua. Muitos falam da destruição do nosso idioma em virtude do uso massificado da tecnologia. Fatalismos à parte, entenda-se que a tecnologia oferece apenas os meios de comunicação, e é agnóstica no que se refere ao bom ou mal português. No mais, o uso específico no ambiente virtual de abreviações, gírias e estrangeirismos, não atrapalha necessariamente  a boa educação e os hábitos de leitura.

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Vivendo a vida como um avatar

17, fevereiro, 2010 Bruno Sem comentários

James Cameron, o diretor de O Exterminado do Futuro e Titanic, levou quase dez anos para viabilizar e desenvolver seu Avatar, sucesso de bilheteria e crítica que reinaugura a glória da ficção científica no cinema, uma vez que o filme é o primeiro do gênero a receber um Globo de Ouro desde E.T., de Spilberg. Utilizando-se dos efeitos mais caros da história e de sua habilidade madura de conduzir linhas narrativas, Cameron construiu sua obra em cima de uma história simples, sem fórmulas desconhecidas e para todos os públicos, com a qual é possível se emocionar e identificar, e difícil se decepcionar. Curiosamente, esta mesma história modesta e cativante utiliza-se de conceitos tecnológicos extremamente avançados e incorre em questões filosóficas complexas e cuja presença em nosso cotidiano é apenas recente. Desta forma, Avatar nos convida a reflexões metafísicas da forma mais despretensiosa possível.

Na clássica trama do soldado em conflito, o protagonista Jake se infiltra na população alienígena Na’vi para coletar informações do planeta Pandora, onde há um minério de altíssimo valor para a humanidade – que continua, neste futuro, confinada a seu planeta moribundo e sem recursos. Para tanto, Jake se “conecta” a um corpo Na’vi produzido por engenharia genética, utilizando seu avatar para interagir com os alienígenas. Durante sua jornada, Jake se apaixona pelo povo alienígena, e presumidamente por sua nova condição física, que além de esbanjar maior força e agilidade que a de seu corpo humano, inclui as duas pernas saudáveis cujo controle Jake perdera na guerra.

Jake passa a se dedicar tanto a suas tarefas virtuais em seu segundo corpo, que seus cuidados mais básicos passam a ser ignorados, como a higiene e a alimentação, de forma muito similar ao que acontece com alguns usuários de computador e vídeogames. Por sinal, a ideia de que todos nós, pouco a pouco, estamos abdicando do real e vivendo mais no mundo virtual, utiliza a tecnologia como o arauto da alienação, mas esta é somente mais uma novidade em um universo de opções já antigo, cuja extensão é limitada somente pela vontade do observador; as drogas alucinógenas, os programas de reality show, e até mesmo romances e meditação podem ser considerados formas de fuga. A tecnologia, contudo, promete uma revolução: alienação em grande estilo.

Quando as tecnologias necessárias para simulação da realidade ao cérebro estiverem disponíveis, e eventualmente estarão, um mundo extraordinário e assustador de possibilidades nascerá. É de se esperar que, à altura do desenvolvimento de tais tecnologias, a inteligência artificial, a computação gráfica e o poder de processamento estejam bastante avançados, propiciando o nascimento de mundos virtuais com os quais poderemos interagir com a qualidade do mundo real ou similar. Em mundos conectados, similares ao software de Matrix, será possível realizar encontros “pessoais” sem a necessidade de cruzar quaisquers distâncias. Por que não ser um pouco mais bonito, magro e forte neste mundo? E que tal ter acesso total, confidencial e seguro aos prazeres da carne, sem efeitos colaterais? Em um lugar que não existe, não há acordos ou responsabilidades – um desafio para a ética e a moral.

Enquanto a tecnologia se desenvolve, os equipamentos terão acesso a locais do cérebro que não temos normalmente, e a realidade virtual se tornará uma realidade estendida, mais interessante, colorida e sensível que a própria realidade – uma loucura permitida pelas maravilhas das portas da percepção.

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2009, o ano da busca pelo meio ambiente

17, janeiro, 2010 Bruno Sem comentários

2009 foi um ano de acontecimentos expressivos para o mundo, e de uma acentuada mas ainda fracassada busca pelo equilíbrio do homem com o meio-ambiente. Na COP-15, conferência internacional sobre meio-ambiente realizada em Copenhague, os líderes mundiais se reuniram mas não conseguiram chegar a metas promissoras. O Brasil foi o destaque do evento – graças ao presidente que cobrou e reclamou da falta de ação de alguns países. 

 

Em Washington, Obama teve um elogiado início de governo, fazendo escolhas certas em seus ministérios e anunciando o retorno de soldados do Iraque. No decorrer do ano, contudo, as críticas a Obama ganharam espaço devido a continuada inércia da economia americana e ao anúncio de envio de mais soldados ao oriente médio. Em Dezembro, Obama ganha um questionado Nobel da paz, que declara encarar como “um convite para agir“.

 

2009 foi palco da reeleição e da tomada do poder por consagrados populistas. Em Honduras, o presidente Manuel Zelaya sofreu um golpe de estado e foi expulso do país, retornando escondido para a embaixa brasileira para assistir à forçada eleição que culminou na vitória de um oponente. No Irã, Ahmadinejad se reelege sob fortes protestos de fraude e uma grande onda de violência e repressão no país.  Na Venezuela, Chávez conquista o direito à reeleição ilimitada, e por fim, na Bolívia, Evo Morales é reeleito e seu partido ganha ainda mais força no congresso.

 

No Oriente Médio, Israel finaliza uma de suas maiores ofensivas contra os palestinos e é acusado de crimes de guerra. Enquanto isso, a Coréia do Norte executa testes com mísseis nucleares, provocando a ONU e seus inimigos. Novamente no Irã, a polêmica da energia atômica continua com o debate sobre a construção de centrífugas e usinas nucleares.

 

Enquanto o mundo tentava se recuperar da crise mundial de 2008, em meio a grandes falências e números desanimadores, o vírus H1N1 fez mais de dez mil vítimas, assustando – mas provando-se mais inofensivo que a gripe comum.

 

2009 entra para a história como um ano de grande preocupação com o aquecimento global e o meio-ambiente, todavia sem ações ou metas significativas estabelecidas. É fato que com a economia tão frágil e debilitada, os EUA e a Europa não vão se comprometer a reduzir o crescimento em prol do meio-ambiente.

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2009, o Ano do Brasil

9, janeiro, 2010 Bruno Sem comentários

Este foi um ano de acontecimentos memoráveis para o Brasil, e de sua consagração como uma potência política e econômica. Pecando tanto em áreas tão básicas como saúde e educação, o país ainda está longe do primeiro mundo, amputado também pela absurda carga tributária e pela pesada e corrupta máquina do governo, mas aproximou-se mais do que se espera de uma democracia capitalista moderna e soberana.

Na esteira da crise iniciada no ano interior, 2009 foi o palco de assustadoras e impressionantes falências de grandesOlimpíadas 2016 - Lula empresas de todo o mundo, e de uma recuperação tímida dos países mais afetados pela crise. O Brasil, por sua vez, experimentou breve ressaca da marolinha, destacando-se como um dos países mais resistentes à crise – se não o mais resistente.

Lula bateu mais recordes com seu índice de popularidade, apesar de atitudes e ações controversas. No setor privado, o presidente criticou em público, ameaçou nos bastidores e finalmente convenceu o presidente da Vale, Roger Agnelli, a investir mais no mercado interno. 2009 também foi o palco da polêmica em torno de Cesare Battisti, o ex-terrorista de esquerda italiano que ainda está exilado no Brasil, e cuja presença no país é favorecida pelo presidente e pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro. Lula também abrigou o presidente deposto de Honduras, Zelaya, na embaixada brasileira – resistindo à pressão de golpistas e protestantes do país.

2009 foi, acima de tudo, um ano de grandiosidade para o Brasil, onde foram iniciadas as negociaçãoes para a maior e mais importante compra militar da história recente do país. O Brasil também conquistou as olimpíadas de 2016 para o Rio de Janeiro e viu fusões e aquisições darem origem a poderosas multi-nacionais tupiniquins, como a BrasilFoods, o Itaú Unibanco e o Pão de Açúcar-Casas Bahia.

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2 anos de blog

7, janeiro, 2010 Bruno Sem comentários

Há 2 anos atrás, iniciei o b:rodrigues log, meu primeiro blog. Dedicado inicialmente a tecnologia e desenvolvimento de software, era atualizado com apenas um artigo por mês, conquistando modestas 100 visitas mensais em seu primeiro ano de atividade.

Em 2009, reinaugurei o blog com o formato atual, este Tecnocrata, e escrevi 29 artigos. A média de visitação acompanhou minha dedicação, atingindo e mantendo a média atual de quase 3000 visitas mensais!

Como sempre, manter um blog part-time tem sido um grande desafio. Mesmo assim estabeleço, para 2010, a meta de um post semanal – alguns menores, talvez – e quem sabe, dobrar minhas visitas?

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A revolução das mídias: Jornalismo

27, dezembro, 2009 Bruno Sem comentários

Nos últimos anos, em especial nos países de primeiro mundo, os jornais sofrem uma brutal queda em suas vendas e audiência. Os jornais impressos, principalmente, estão sendo esmagados pelos novos veículos de comunicação, como blogs, microblogs e sites de notícia especializados. No Brasil, este movimento é menos acentuado, devido em grande parte à migração de muitas pessoas a classes sociais mais altas, fato que estimula o consumo até mesmo de jornais. As próximas décadas, contudo, tendem a ser cada vez mais negras para os antigos formatos de mídia, dominadas por gerações que ignoram por completo a existência e a importância de tais veículos.

De forma similar à morte das gravadoras de música, esta é uma mudança a qual as editoras de revistas e jornais terão de se adaptar se quiserem sobreviver.  Existe, entretanto, um problema conceitual nesta revolução midiática. Os novos arautos das notícias, os sites indepentes, não produzem seu próprio conteúdo desde a fonte, em sua maioria. Em vez disto, apenas replicam notícias coletadas de diversas fontes. A produção de notícias como conhecemos hoje depende de estruturas e recursos que os sites independentes não possuem, como fontes privilegiadas por tradição e reputação, fontes remotas e sucursais, etc. Entramos assim em um problema financeiro: Os consumidores trocam a mídia privada convencional pela mídia digital independente. A segunda é consumidora da primeira, mas não em volume suficiente para mantê-la. No pior cenário possível, a primeira deixa de existir e a segunda fica sem matéria prima, e é o fim do jornalismo profissional escrito, ou sua redução ao mínimo. Outro possível desdobramento é a sobrevivência exclusiva do jornalismo nos braços de mídia de grandes empresas pontocom, como o Google e a Microsoft. Em qualquer um dos casos, o jornalismo profissional sai perdendo.

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Admirável Mundo Novo

8, novembro, 2009 Bruno Sem comentários

No ano de 1932, Aldous Huxleu publicou seu Admirável Mundo Novo, o romance que consagraria o autor como um dos grandes escritores ingleses. Cientificamente revolucionário, o livro descreve uma sociedade futurística dominada pela lógica, um estado tecnocrata perfeito onde não existem emoções expressivas e as pessoas são condicionadas a um estado permanente de harmonia e eficácia. Quase trinta anos após o lançamento do livro, o autor trabalhou em sua edição complementar Revisited, na qual mencionou como o mundo tinha se tornado parecido com sua distopia em ritmo muito mais rápido do que ele previa. Quase quarenta anos já se passaram desde então, e o ritmo parece só aumentar. 

Na ficção, o mundo é controlado por um único estado totalitarista, conhecido como Estado do Mundo. Através de uma hipotética manipulação dos óvulos, que muito se assemelha com algumas possibilidades da manipulação genética, os cidadãos são concebidos de forma artificial e industrial, divididos e moldados para compor castas sociais com objetivo e capacidade pré-definidos. Cada casta, logo, é apta a desempenhar um papel específico e está aberta a um nível de informação pré-determinado, de forma muito parecida com o que acontece em nosso mundo atual, onde praticamente todo o acesso à cultura e à educação é segregado entre as classes sociais.

A dor e o sofrimento não existem no Estado do Mundo. Completamente apartadas do conceito de família, as pessoas não são apegadas a ninguém, tendo a morte importância mínima. Essa, acontece impreterivelmente aos sessenta anos, sendo que a velhice não se manifesta durante estes anos. O sexo hetero e homossexual é estimulado desde a infância como um hábito meramente social e recreativo, e mesmo as mais inesperadas oscilações da alma humana podem ser tratadas com a Soma, droga sem efeitos colaterais que proporciona uma sensação de relaxamento e tranquilidade ao seu usuário. Novamente, as sociedades modernas se assemelham cada vez mais ao Estado do Mundo nestes quesitosA família exerce papel cada vez menor na vida do indivíduo, o sexo (inclusive homossexual) é fenomêno cada vez mais efêmero, e as drogas estão presentes em todos os níveis da sociedade.

A maior e mais assustadora semelhança dos mundos se dá, contudo, no modo de vida automatizado e robótico, guiado pelo consumismo extremo e regido pelos princípios de Henry Ford – otimizado, eficiente e produtivo. Desta Laranja Mecânica do romance, só escapam as pessoas que não se adaptaram ao sistema, os “selvagens”, homens deixados à própria sorte e às próprias leis nas áreas denominadas “reservas”. Resta contarmos com que o mundo real, em sua evolução em direção a Ford, guarde sua própria reserva, com o que sobrar de nossa humanidade como a conhecemos hoje.

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