Vivendo a vida como um avatar
James Cameron, o diretor de O Exterminado do Futuro e Titanic, levou quase dez anos para viabilizar e desenvolver seu Avatar, sucesso de bilheteria e crítica que reinaugura a glória da ficção científica no cinema, uma vez que o filme é o primeiro do gênero a receber um Globo de Ouro desde E.T., de Spilberg. Utilizando-se dos efeitos mais caros da história e de sua habilidade madura de conduzir linhas narrativas, Cameron construiu sua obra em cima de uma história simples, sem fórmulas desconhecidas e para todos os públicos, com a qual é possível se emocionar e identificar, e difícil se decepcionar. Curiosamente, esta mesma história modesta e cativante utiliza-se de conceitos tecnológicos extremamente avançados e incorre em questões filosóficas complexas e cuja presença em nosso cotidiano é apenas recente. Desta forma, Avatar nos convida a reflexões metafísicas da forma mais despretensiosa possível.
Na clássica trama do soldado em conflito, o protagonista Jake se infiltra na população alienígena Na’vi para coletar informações do planeta Pandora, onde há um minério de altíssimo valor para a humanidade – que continua, neste futuro, confinada a seu planeta moribundo e sem recursos. Para tanto, Jake se “conecta” a um corpo Na’vi produzido por engenharia genética, utilizando seu avatar para interagir com os alienígenas. Durante sua jornada, Jake se apaixona pelo povo alienígena, e presumidamente por sua nova condição física, que além de esbanjar maior força e agilidade que a de seu corpo humano, inclui as duas pernas saudáveis cujo controle Jake perdera na guerra.
Jake passa a se dedicar tanto a suas tarefas virtuais em seu segundo corpo, que seus cuidados mais básicos passam a ser ignorados, como a higiene e a alimentação, de forma muito similar ao que acontece com alguns usuários de computador e vídeogames. Por sinal, a ideia de que todos nós, pouco a pouco, estamos abdicando do real e vivendo mais no mundo virtual, utiliza a tecnologia como o arauto da alienação, mas esta é somente mais uma novidade em um universo de opções já antigo, cuja extensão é limitada somente pela vontade do observador; as drogas alucinógenas, os programas de reality show, e até mesmo romances e meditação podem ser considerados formas de fuga. A tecnologia, contudo, promete uma revolução: alienação em grande estilo.
Quando as tecnologias necessárias para simulação da realidade ao cérebro estiverem disponíveis, e eventualmente estarão, um mundo extraordinário e assustador de possibilidades nascerá. É de se esperar que, à altura do desenvolvimento de tais tecnologias, a inteligência artificial, a computação gráfica e o poder de processamento estejam bastante avançados, propiciando o nascimento de mundos virtuais com os quais poderemos interagir com a qualidade do mundo real ou similar. Em mundos conectados, similares ao software de Matrix, será possível realizar encontros “pessoais” sem a necessidade de cruzar quaisquers distâncias. Por que não ser um pouco mais bonito, magro e forte neste mundo? E que tal ter acesso total, confidencial e seguro aos prazeres da carne, sem efeitos colaterais? Em um lugar que não existe, não há acordos ou responsabilidades – um desafio para a ética e a moral.
Enquanto a tecnologia se desenvolve, os equipamentos terão acesso a locais do cérebro que não temos normalmente, e a realidade virtual se tornará uma realidade estendida, mais interessante, colorida e sensível que a própria realidade – uma loucura permitida pelas maravilhas das portas da percepção.