A corrupção da sociedade
Desde o fim da ditadura, e em especial no atual governo, desmontes de esquemas de corrupção e denúncias de má-conduta de políticos são lugar-comum na mídia. A sociedade assiste atônita aos escândalos dos quais nenhum dos poderes sai ileso, em sua maioria crimes estabelecidos na década passada, e cujo recente crescendo desperta um uníssono e indignado “por quê?”
Por que, afinal, nossos governantes são tão corruptos, de forma assustadoramente generalizada como revelou o escândalo das passagens aéreas, de onde nem mesmo símbolos da corretude política como Eduardo Suplicy e Fernando Gabeira saíram ilesos?
Em primeiro lugar, é preciso entender o que é corrupção. Sempre que algo é desviado de seu percurso estabelecido, ou possui sua forma original modificada, é um exemplo de corrupção. O seu oposto, portanto, o que mantém o estado original das coisas, é a retidão. Nossos políticos são corruptos pois agem de forma diferente do esperado e pré-estabelecido, negociando seu entendimento do que é correto. E fazem isto pois não são íntegros o bastante para permanecer no curso que é esperado.
A princípio, pode parecer que todo político é imbuído de um desejo de assaltar sistematicamente a população. Contudo, o mais provável é que as más-práticas sejam adotadas de forma lânguida e conveniente, ao sabor da situação. Aos poucos, as pessoas se adaptam ao ambiente, e se não forem corretas o bastante, flexibilizam seus princípios. Mas um princípio, por definição, não admite negociação ou filosofia, é uma idéia que norteia o homem a uma linha de conduta que condiza com seus valores e sua essência, e não caminha com a lógica. Quando violado, um princípio não mede valores, e só funciona se utilizado cegamente.
O povo brasileiro é altamente flexível e aberto, capaz de compreender muitos pontos de vista e agir de forma maleável. Sua falta de seriedade, contudo, é ao mesmo tempo um néctar para o bem-estar social e um veneno contra a corretude.
A corrupção acontece a qualquer nível, e pode parecer ter tamanhos diferentes de diferentes ângulos. Ao aceitar um troco incorreto, ao desfrutar de um bem ao qual não se tem direito – como a carteira do estudante, amplamente utilizada por pessoas que não estudam - ou mesmo se aproveitar de um preço visivelmente incorreto em um estabelecimento comercial, estamos nos corrompendo, e assumindo a identidade de cidadãos de um país que não é sério.