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A corrupção da sociedade

9, junho, 2009 Bruno 1 comentário

Desde o fim da ditadura, e em especial no atual governo, desmontes de esquemas de corrupção e denúncias de má-conduta de políticos são lugar-comum na mídia. A sociedade assiste atônita aos escândalos dos quais nenhum dos poderes sai ileso, em sua maioria crimes estabelecidos na década passada, e cujo recente crescendo desperta um uníssono e indignado “por quê?”

Por que, afinal, nossos governantes são tão corruptos, de forma assustadoramente generalizada como revelou o escândalo das passagens aéreas, de onde nem mesmo símbolos da corretude política como Eduardo Suplicy e Fernando Gabeira saíram ilesos?

Em primeiro lugar, é preciso entender o que é corrupção. Sempre que algo é desviado de seu percurso estabelecido, ou possui sua forma original modificada, é um exemplo de corrupção. O seu oposto, portanto, o que mantém o estado original das coisas, é a retidão. Nossos políticos são corruptos pois agem de forma diferente do esperado e pré-estabelecido, negociando seu entendimento do que é correto. E fazem isto pois não são íntegros o bastante para permanecer no curso que é esperado.

A princípio, pode parecer que todo político é imbuído de um desejo de assaltar sistematicamente a população. Contudo, o mais provável é que as más-práticas sejam adotadas de forma lânguida e conveniente, ao sabor da situação. Aos poucos, as pessoas se adaptam ao ambiente, e se não forem corretas o bastante, flexibilizam seus princípios. Mas um princípio, por definição, não admite negociação ou filosofia, é uma idéia que norteia o homem a uma linha de conduta que condiza com seus valores e sua essência, e não caminha com a lógica. Quando violado, um princípio não mede valores, e só funciona se utilizado cegamente.

O povo brasileiro é altamente flexível e aberto, capaz de compreender muitos pontos de vista e agir de forma maleável. Sua falta de seriedade, contudo, é ao mesmo tempo um néctar para o bem-estar social e um veneno contra a corretude. 

A corrupção acontece a qualquer nível, e pode parecer ter tamanhos diferentes de diferentes ângulos. Ao aceitar um troco incorreto, ao desfrutar de um bem ao qual não se tem direito – como a carteira do estudante, amplamente utilizada por pessoas que não estudam - ou mesmo se aproveitar de um preço visivelmente incorreto em um estabelecimento comercial, estamos nos corrompendo, e assumindo a identidade de cidadãos de um país que não é sério.

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O que representa a derrocada do Pirate Bay na justiça?

22, maio, 2009 Bruno Sem comentários

O Pirate Bay é uma das principais fontes de softwares, músicas, vídeos e filmes pirateados, isto é, copiados sem permissão. No ar desde 2004, o site é mantido pelos suecos Gottfrid Svartholm e Fredrik Neij – melhor conhecidos pelos pseudônimos “anakata” e “TiAMO” – e é provavelmente o maior buscador de material pirateado do mundo. No último mês, seus donos foram sentenciados a um ano de prisão e uma multa de quase 3 milhões de euros por crime contra a lei de direitos autorais. Sua condenação traz à tona um dos debates mais difíceis da atualidade, o dos direitos autorais.

A característica que faz da internet um dos fenômenos mais importantes do último século é de ser um espaço livre e gratuito, onde qualquer um pode transitar e interagir sem barreiras ou diferenças. É uma oportunidade de comunicação singular que fomenta um ambiente democrático de criatividade. É esta mesma característica, contudo, que causa a ruptura com as mídias tradicionais, ameaçando gravadoras, editoras e estúdios.

Há tentativas de controlar a internet ganhando crescente força no mundo. A maior de todas é a do partido comunista Chinês, que monitora a rede em busca de insurgentes e críticos do governo e bloqueia sites considerados criminosos. Também a França, o berço do iluminismo, flerta com o controle da internet com lei ainda em aprovação que banirá consumidores de mídia pirata da internet por um ano.

A idéia de controlar um ambiente livre e banir pessoas de um espaço fundamentalmente anônimo como a internet, não apenas é de viabilidade técnica questionável, é um crime contra a evolução da sociedade. Se houvessem barreiras por toda a internet, a tecnologia perderia seu poder de mudar o mundo e seria apenas mais um canal de comunicação e comércio. As pessoas que consomem mídia sem pagar não são criminosos, e sim cidadãos comuns expostos a um novo modelo de consumo, onde impera a idéia de liberdade e poder de compartilhamento. A prisão de Svartholm e Neij é válida segundo as leis de nossa sociedade, bem como seria a punição de todos os consumidores de mídia pirata. O controle e a regulamentação da internet para punição de crimes também é válido política e judicialmente. Mas este não é o mundo em que queremos viver.

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Guerra como prestação de serviço

10, abril, 2009 Bruno Sem comentários

Pela primeira vez na história, matadores de aluguel organizam-se em empresas globais que negociam diretamente com governos, facções terroristas e qualquer um disposto a pagar bem. Seu sucesso representa uma vitória do capitalismo e da terceirização, e mais uma profunda e dolorosa ferida na democracia.

Os mercenários remontam a datas tão antigas quanto os registros permitem. Um bom exemplo é o das Guerras Médicas, uma série de conflitos entre Gregos e Persas cinco séculos A.C., dos quais a Batalha das Termópilas é o mais famoso, e fonte de inspiração da H.Q. 300 de Frank Miller, bem como o filme homônimo. Nestas guerras, o rei persa Xerxes, mais de uma vez, empregou combatentes terceirizados, além de pagar a gregos por informações.

Desde então, novas e surpreendentes maneiras de lucrar com a guerra foram inventadas, em especial na primeira e segunda guerras mundiais. A primeira guerra mundial, por exemplo, trouxe o War Bond, uma ação de guerra cujo investimento é utilizado em prol da vitória. O retorno é materializado após o fim vitorioso da guerra. Mas a grande galinha dos ovos de ouro foi a segunda guerra mundial, que deixou de espólio uma dúzia de países falidos da ex-URSS com centenas de bases militares praticamente abandonadas, cada uma com toneladas de armamentos de todos os tipos. Estas armas são vendidas até hoje por comerciantes e podiam ser encontradas em quase todos os conflitos armados pós-segunda guerra, nos dois lados do campo de batalha.

Por fim, no início da década de 90, surgiram grupos armados de grande porte prontos para lutar em troca de dinheiro, ideologicamente promíscuos. Tim Spicer talvez seja o primeiro homem a criar uma empresa deste tipo, a Aegis Defence Services. Alguns grupos como este cresceram rapidamente e se tornaram empresas globais de alto faturamento com dezenas de milhares de funcionários. Seus soldados variam de principantes pobremente armados a especialistas em tecnologias de última geração. Sua estrutura é comparável com as empresas high-tech, de alta complexidade, gerenciamento moderno e foco em resultados e valorização das ações. Além disso, estas empresas são alvo constante de polêmicas, envolvidas rotineiramente em escândalos. O melhor e mais conhecido exemplo é o das torturas na prisão de Abu Ghraib do Iraque, que envolveram militares terceirizados do exército norte-americano. As pessoas foram processadas individualmente, e as empresas, imunes, continuam a fechar novos contratos com o exército estadunidense.

A sociedade parece impotente em relação às empresas militares privadas, que são enquadradas nas leis corporativas apesar da importância de seu ramo de atuação. Seus contratos são protegidos por leis e não podem ser revelados mesmo em situações críticas. A comum participação de membros do governo e do exército em seu quadro societário completam sua blindagem.

É óbvia a emergência de uma nova política social para as empresas de guerra privadas. Uma política específica, híbrida, que preveja as facilidades comerciais e contratuais às quais as empresas tem direito, e a transparência necessária ao bem da sociedade – e do próprio estado.

Leitura indicada

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