Pela primeira vez na história, matadores de aluguel organizam-se em empresas globais que negociam diretamente com governos, facções terroristas e qualquer um disposto a pagar bem. Seu sucesso representa uma vitória do capitalismo e da terceirização, e mais uma profunda e dolorosa ferida na democracia.
Os mercenários remontam a datas tão antigas quanto os registros permitem. Um bom exemplo é o das Guerras Médicas, uma série de conflitos entre Gregos e Persas cinco séculos A.C., dos quais a Batalha das Termópilas é o mais famoso, e fonte de inspiração da H.Q. 300 de Frank Miller, bem como o filme homônimo. Nestas guerras, o rei persa Xerxes, mais de uma vez, empregou combatentes terceirizados, além de pagar a gregos por informações.
Desde então, novas e surpreendentes maneiras de lucrar com a guerra foram inventadas, em especial na primeira e segunda guerras mundiais. A primeira guerra mundial, por exemplo, trouxe o War Bond, uma ação de guerra cujo investimento é utilizado em prol da vitória. O retorno é materializado após o fim vitorioso da guerra. Mas a grande galinha dos ovos de ouro foi a segunda guerra mundial, que deixou de espólio uma dúzia de países falidos da ex-URSS com centenas de bases militares praticamente abandonadas, cada uma com toneladas de armamentos de todos os tipos. Estas armas são vendidas até hoje por comerciantes e podiam ser encontradas em quase todos os conflitos armados pós-segunda guerra, nos dois lados do campo de batalha.
Por fim, no início da década de 90, surgiram grupos armados de grande porte prontos para lutar em troca de dinheiro, ideologicamente promíscuos. Tim Spicer talvez seja o primeiro homem a criar uma empresa deste tipo, a Aegis Defence Services. Alguns grupos como este cresceram rapidamente e se tornaram empresas globais de alto faturamento com dezenas de milhares de funcionários. Seus soldados variam de principantes pobremente armados a especialistas em tecnologias de última geração. Sua estrutura é comparável com as empresas high-tech, de alta complexidade, gerenciamento moderno e foco em resultados e valorização das ações. Além disso, estas empresas são alvo constante de polêmicas, envolvidas rotineiramente em escândalos. O melhor e mais conhecido exemplo é o das torturas na prisão de Abu Ghraib do Iraque, que envolveram militares terceirizados do exército norte-americano. As pessoas foram processadas individualmente, e as empresas, imunes, continuam a fechar novos contratos com o exército estadunidense.
A sociedade parece impotente em relação às empresas militares privadas, que são enquadradas nas leis corporativas apesar da importância de seu ramo de atuação. Seus contratos são protegidos por leis e não podem ser revelados mesmo em situações críticas. A comum participação de membros do governo e do exército em seu quadro societário completam sua blindagem.
É óbvia a emergência de uma nova política social para as empresas de guerra privadas. Uma política específica, híbrida, que preveja as facilidades comerciais e contratuais às quais as empresas tem direito, e a transparência necessária ao bem da sociedade – e do próprio estado.
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