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Breve história do nosso idioma e da tecnologia

28, março, 2010 Bruno Sem comentários

Naqueles tempos, poucas pessoas possuíam um computador em casa no Brasil. O equipamento já havia adquirido status de item de luxo entre os eletrodomésticos, mas sua real utilidade no cotidiano ainda era questionada. o computador ainda era, para todos os efeitos, supérfluo.

Isto foi há 15 anos atrás. A internet se esgueirava tímida nos primeiros comerciais. Os poucos provedores disponíveis, como o gigante norte-americano AOL (América Online) e o recém criado brasileiro UOL (Universo Online), disputavam usuários com as BBS (Bulletin Board System), sistemas simples de texto-puro, isolados cada qual em sua própria rede de usuários, e mantidas muitas vezes por uma só pessoa.  Não demorou muito para a internet se popularizar, e junto a ela os primeiros softwares de comunicação via internet, como o ICQ e o IRC. Foi neste cenário em que começou um dos maiores processos de mudança que a língua portuguesa sofreria nas últimas décadas.

Como não era possível utilizar acentos na maioria das aplicações estrangeiras, desenvolvendo-se por necessidade o uso de palavras que imitam a fala, como o naum e o eh. O que na época era uma solução linguística para uma limitação tecnológica, propagou-se como uma gíria para a nova geração - que sequer conhece a história e dispõe de acentos em profusão nas aplicações modernas.

Foram a internet e os celulares que trouxeram as abreviações exdrúxulas – muitas vezes baseadas apenas em consoantes - para a língua, como vc e tc. A primeira, devido à alta velocidade que imprime nos diálogos de comunicadores instantâneos, provocando o encurtamento do diálogo e o menor cuidado com o texto. O segundo, pela inconveniência do minúsculo teclado numérico agrupado, além da limitação do total de caracteres.

A tecnologia também trouxe uma avalanche de estrangeirismos para a língua portuguesa, alguns dos quais ganharam um lugar ao sol nos dicionários, como o famigerado deletar.

Essas mudanças são vistas com olhos suspeitos pela maioria dos literatos e profissionais da língua. Muitos falam da destruição do nosso idioma em virtude do uso massificado da tecnologia. Fatalismos à parte, entenda-se que a tecnologia oferece apenas os meios de comunicação, e é agnóstica no que se refere ao bom ou mal português. No mais, o uso específico no ambiente virtual de abreviações, gírias e estrangeirismos, não atrapalha necessariamente  a boa educação e os hábitos de leitura.

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Vivendo a vida como um avatar

17, fevereiro, 2010 Bruno Sem comentários

James Cameron, o diretor de O Exterminado do Futuro e Titanic, levou quase dez anos para viabilizar e desenvolver seu Avatar, sucesso de bilheteria e crítica que reinaugura a glória da ficção científica no cinema, uma vez que o filme é o primeiro do gênero a receber um Globo de Ouro desde E.T., de Spilberg. Utilizando-se dos efeitos mais caros da história e de sua habilidade madura de conduzir linhas narrativas, Cameron construiu sua obra em cima de uma história simples, sem fórmulas desconhecidas e para todos os públicos, com a qual é possível se emocionar e identificar, e difícil se decepcionar. Curiosamente, esta mesma história modesta e cativante utiliza-se de conceitos tecnológicos extremamente avançados e incorre em questões filosóficas complexas e cuja presença em nosso cotidiano é apenas recente. Desta forma, Avatar nos convida a reflexões metafísicas da forma mais despretensiosa possível.

Na clássica trama do soldado em conflito, o protagonista Jake se infiltra na população alienígena Na’vi para coletar informações do planeta Pandora, onde há um minério de altíssimo valor para a humanidade – que continua, neste futuro, confinada a seu planeta moribundo e sem recursos. Para tanto, Jake se “conecta” a um corpo Na’vi produzido por engenharia genética, utilizando seu avatar para interagir com os alienígenas. Durante sua jornada, Jake se apaixona pelo povo alienígena, e presumidamente por sua nova condição física, que além de esbanjar maior força e agilidade que a de seu corpo humano, inclui as duas pernas saudáveis cujo controle Jake perdera na guerra.

Jake passa a se dedicar tanto a suas tarefas virtuais em seu segundo corpo, que seus cuidados mais básicos passam a ser ignorados, como a higiene e a alimentação, de forma muito similar ao que acontece com alguns usuários de computador e vídeogames. Por sinal, a ideia de que todos nós, pouco a pouco, estamos abdicando do real e vivendo mais no mundo virtual, utiliza a tecnologia como o arauto da alienação, mas esta é somente mais uma novidade em um universo de opções já antigo, cuja extensão é limitada somente pela vontade do observador; as drogas alucinógenas, os programas de reality show, e até mesmo romances e meditação podem ser considerados formas de fuga. A tecnologia, contudo, promete uma revolução: alienação em grande estilo.

Quando as tecnologias necessárias para simulação da realidade ao cérebro estiverem disponíveis, e eventualmente estarão, um mundo extraordinário e assustador de possibilidades nascerá. É de se esperar que, à altura do desenvolvimento de tais tecnologias, a inteligência artificial, a computação gráfica e o poder de processamento estejam bastante avançados, propiciando o nascimento de mundos virtuais com os quais poderemos interagir com a qualidade do mundo real ou similar. Em mundos conectados, similares ao software de Matrix, será possível realizar encontros “pessoais” sem a necessidade de cruzar quaisquers distâncias. Por que não ser um pouco mais bonito, magro e forte neste mundo? E que tal ter acesso total, confidencial e seguro aos prazeres da carne, sem efeitos colaterais? Em um lugar que não existe, não há acordos ou responsabilidades – um desafio para a ética e a moral.

Enquanto a tecnologia se desenvolve, os equipamentos terão acesso a locais do cérebro que não temos normalmente, e a realidade virtual se tornará uma realidade estendida, mais interessante, colorida e sensível que a própria realidade – uma loucura permitida pelas maravilhas das portas da percepção.

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2009, o ano da busca pelo meio ambiente

17, janeiro, 2010 Bruno Sem comentários

2009 foi um ano de acontecimentos expressivos para o mundo, e de uma acentuada mas ainda fracassada busca pelo equilíbrio do homem com o meio-ambiente. Na COP-15, conferência internacional sobre meio-ambiente realizada em Copenhague, os líderes mundiais se reuniram mas não conseguiram chegar a metas promissoras. O Brasil foi o destaque do evento – graças ao presidente que cobrou e reclamou da falta de ação de alguns países. 

 

Em Washington, Obama teve um elogiado início de governo, fazendo escolhas certas em seus ministérios e anunciando o retorno de soldados do Iraque. No decorrer do ano, contudo, as críticas a Obama ganharam espaço devido a continuada inércia da economia americana e ao anúncio de envio de mais soldados ao oriente médio. Em Dezembro, Obama ganha um questionado Nobel da paz, que declara encarar como “um convite para agir“.

 

2009 foi palco da reeleição e da tomada do poder por consagrados populistas. Em Honduras, o presidente Manuel Zelaya sofreu um golpe de estado e foi expulso do país, retornando escondido para a embaixa brasileira para assistir à forçada eleição que culminou na vitória de um oponente. No Irã, Ahmadinejad se reelege sob fortes protestos de fraude e uma grande onda de violência e repressão no país.  Na Venezuela, Chávez conquista o direito à reeleição ilimitada, e por fim, na Bolívia, Evo Morales é reeleito e seu partido ganha ainda mais força no congresso.

 

No Oriente Médio, Israel finaliza uma de suas maiores ofensivas contra os palestinos e é acusado de crimes de guerra. Enquanto isso, a Coréia do Norte executa testes com mísseis nucleares, provocando a ONU e seus inimigos. Novamente no Irã, a polêmica da energia atômica continua com o debate sobre a construção de centrífugas e usinas nucleares.

 

Enquanto o mundo tentava se recuperar da crise mundial de 2008, em meio a grandes falências e números desanimadores, o vírus H1N1 fez mais de dez mil vítimas, assustando – mas provando-se mais inofensivo que a gripe comum.

 

2009 entra para a história como um ano de grande preocupação com o aquecimento global e o meio-ambiente, todavia sem ações ou metas significativas estabelecidas. É fato que com a economia tão frágil e debilitada, os EUA e a Europa não vão se comprometer a reduzir o crescimento em prol do meio-ambiente.

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2009, o Ano do Brasil

9, janeiro, 2010 Bruno Sem comentários

Este foi um ano de acontecimentos memoráveis para o Brasil, e de sua consagração como uma potência política e econômica. Pecando tanto em áreas tão básicas como saúde e educação, o país ainda está longe do primeiro mundo, amputado também pela absurda carga tributária e pela pesada e corrupta máquina do governo, mas aproximou-se mais do que se espera de uma democracia capitalista moderna e soberana.

Na esteira da crise iniciada no ano interior, 2009 foi o palco de assustadoras e impressionantes falências de grandesOlimpíadas 2016 - Lula empresas de todo o mundo, e de uma recuperação tímida dos países mais afetados pela crise. O Brasil, por sua vez, experimentou breve ressaca da marolinha, destacando-se como um dos países mais resistentes à crise – se não o mais resistente.

Lula bateu mais recordes com seu índice de popularidade, apesar de atitudes e ações controversas. No setor privado, o presidente criticou em público, ameaçou nos bastidores e finalmente convenceu o presidente da Vale, Roger Agnelli, a investir mais no mercado interno. 2009 também foi o palco da polêmica em torno de Cesare Battisti, o ex-terrorista de esquerda italiano que ainda está exilado no Brasil, e cuja presença no país é favorecida pelo presidente e pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro. Lula também abrigou o presidente deposto de Honduras, Zelaya, na embaixada brasileira – resistindo à pressão de golpistas e protestantes do país.

2009 foi, acima de tudo, um ano de grandiosidade para o Brasil, onde foram iniciadas as negociaçãoes para a maior e mais importante compra militar da história recente do país. O Brasil também conquistou as olimpíadas de 2016 para o Rio de Janeiro e viu fusões e aquisições darem origem a poderosas multi-nacionais tupiniquins, como a BrasilFoods, o Itaú Unibanco e o Pão de Açúcar-Casas Bahia.

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A revolução das mídias: Jornalismo

27, dezembro, 2009 Bruno Sem comentários

Nos últimos anos, em especial nos países de primeiro mundo, os jornais sofrem uma brutal queda em suas vendas e audiência. Os jornais impressos, principalmente, estão sendo esmagados pelos novos veículos de comunicação, como blogs, microblogs e sites de notícia especializados. No Brasil, este movimento é menos acentuado, devido em grande parte à migração de muitas pessoas a classes sociais mais altas, fato que estimula o consumo até mesmo de jornais. As próximas décadas, contudo, tendem a ser cada vez mais negras para os antigos formatos de mídia, dominadas por gerações que ignoram por completo a existência e a importância de tais veículos.

De forma similar à morte das gravadoras de música, esta é uma mudança a qual as editoras de revistas e jornais terão de se adaptar se quiserem sobreviver.  Existe, entretanto, um problema conceitual nesta revolução midiática. Os novos arautos das notícias, os sites indepentes, não produzem seu próprio conteúdo desde a fonte, em sua maioria. Em vez disto, apenas replicam notícias coletadas de diversas fontes. A produção de notícias como conhecemos hoje depende de estruturas e recursos que os sites independentes não possuem, como fontes privilegiadas por tradição e reputação, fontes remotas e sucursais, etc. Entramos assim em um problema financeiro: Os consumidores trocam a mídia privada convencional pela mídia digital independente. A segunda é consumidora da primeira, mas não em volume suficiente para mantê-la. No pior cenário possível, a primeira deixa de existir e a segunda fica sem matéria prima, e é o fim do jornalismo profissional escrito, ou sua redução ao mínimo. Outro possível desdobramento é a sobrevivência exclusiva do jornalismo nos braços de mídia de grandes empresas pontocom, como o Google e a Microsoft. Em qualquer um dos casos, o jornalismo profissional sai perdendo.

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No capitalismo, a crise cíclica é uma constante

2, agosto, 2009 Bruno Sem comentários

Enquanto o mundo dá sinais de recuperação da grande crise, discute-se como blindar a economia contra futuros desastres da mesma magnitude. É um consenso que a crise foi causada pelo excesso de crédito e confiança concedidos aos consumidores, de maneira que a regulamentação e a intervenção do governo junto aos bancos e financiadoras possibilitariam maior controle do risco. Uma variável, contudo, é deixada de lado nesta equação: a natureza caótica inerente ao modelo econômico capitalista.

Ao contrário do comunismo, o capitalismo estimula a conquista própria e pessoal. Esta é sua grande virtude, à medida que incita um ambiente altamente competitivo e produtivo; e seu legado maldito, por exigir a desigualdade e encorajar os excessos. Diferentemente do mundo que idealizamos coletivamente – igualitário e capitalista – o caminho individualista de nossa economia não dá lugar à justiça social. Mesmo países que desfrutam de baixa desigualdade social dependem de outros países para compensar a balança. No capitalismo, não há vencedor sem perdedor, e neste sentido, ele é perfeitamente compatível com o modelo da vida; é a representação da luta pela sobrevivência como modelo econômico, o definitivo “mundo cão”. Na medida em que a competição e o sucesso afiguram-se como elementos fundamentais para as sociedades e os indivíduos capitalistas, o excesso é uma constante. As exigências de um mundo meritocrata centrado no crescimento, na posse e na conquista, não dão lugar à temperança financeira ou à responsabilidade econômica. Desta feita, os esforços para conter excessos especulativos são, na melhor das hipóteses, localizados e passageiros. A perseguição do lucro e da vitória como quintessência do capitalismo firmam o eterno ciclo de exagero, crise e recuperação.

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A corrupção da sociedade

9, junho, 2009 Bruno 1 comentário

Desde o fim da ditadura, e em especial no atual governo, desmontes de esquemas de corrupção e denúncias de má-conduta de políticos são lugar-comum na mídia. A sociedade assiste atônita aos escândalos dos quais nenhum dos poderes sai ileso, em sua maioria crimes estabelecidos na década passada, e cujo recente crescendo desperta um uníssono e indignado “por quê?”

Por que, afinal, nossos governantes são tão corruptos, de forma assustadoramente generalizada como revelou o escândalo das passagens aéreas, de onde nem mesmo símbolos da corretude política como Eduardo Suplicy e Fernando Gabeira saíram ilesos?

Em primeiro lugar, é preciso entender o que é corrupção. Sempre que algo é desviado de seu percurso estabelecido, ou possui sua forma original modificada, é um exemplo de corrupção. O seu oposto, portanto, o que mantém o estado original das coisas, é a retidão. Nossos políticos são corruptos pois agem de forma diferente do esperado e pré-estabelecido, negociando seu entendimento do que é correto. E fazem isto pois não são íntegros o bastante para permanecer no curso que é esperado.

A princípio, pode parecer que todo político é imbuído de um desejo de assaltar sistematicamente a população. Contudo, o mais provável é que as más-práticas sejam adotadas de forma lânguida e conveniente, ao sabor da situação. Aos poucos, as pessoas se adaptam ao ambiente, e se não forem corretas o bastante, flexibilizam seus princípios. Mas um princípio, por definição, não admite negociação ou filosofia, é uma idéia que norteia o homem a uma linha de conduta que condiza com seus valores e sua essência, e não caminha com a lógica. Quando violado, um princípio não mede valores, e só funciona se utilizado cegamente.

O povo brasileiro é altamente flexível e aberto, capaz de compreender muitos pontos de vista e agir de forma maleável. Sua falta de seriedade, contudo, é ao mesmo tempo um néctar para o bem-estar social e um veneno contra a corretude. 

A corrupção acontece a qualquer nível, e pode parecer ter tamanhos diferentes de diferentes ângulos. Ao aceitar um troco incorreto, ao desfrutar de um bem ao qual não se tem direito – como a carteira do estudante, amplamente utilizada por pessoas que não estudam - ou mesmo se aproveitar de um preço visivelmente incorreto em um estabelecimento comercial, estamos nos corrompendo, e assumindo a identidade de cidadãos de um país que não é sério.

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O que representa a derrocada do Pirate Bay na justiça?

22, maio, 2009 Bruno Sem comentários

O Pirate Bay é uma das principais fontes de softwares, músicas, vídeos e filmes pirateados, isto é, copiados sem permissão. No ar desde 2004, o site é mantido pelos suecos Gottfrid Svartholm e Fredrik Neij – melhor conhecidos pelos pseudônimos “anakata” e “TiAMO” – e é provavelmente o maior buscador de material pirateado do mundo. No último mês, seus donos foram sentenciados a um ano de prisão e uma multa de quase 3 milhões de euros por crime contra a lei de direitos autorais. Sua condenação traz à tona um dos debates mais difíceis da atualidade, o dos direitos autorais.

A característica que faz da internet um dos fenômenos mais importantes do último século é de ser um espaço livre e gratuito, onde qualquer um pode transitar e interagir sem barreiras ou diferenças. É uma oportunidade de comunicação singular que fomenta um ambiente democrático de criatividade. É esta mesma característica, contudo, que causa a ruptura com as mídias tradicionais, ameaçando gravadoras, editoras e estúdios.

Há tentativas de controlar a internet ganhando crescente força no mundo. A maior de todas é a do partido comunista Chinês, que monitora a rede em busca de insurgentes e críticos do governo e bloqueia sites considerados criminosos. Também a França, o berço do iluminismo, flerta com o controle da internet com lei ainda em aprovação que banirá consumidores de mídia pirata da internet por um ano.

A idéia de controlar um ambiente livre e banir pessoas de um espaço fundamentalmente anônimo como a internet, não apenas é de viabilidade técnica questionável, é um crime contra a evolução da sociedade. Se houvessem barreiras por toda a internet, a tecnologia perderia seu poder de mudar o mundo e seria apenas mais um canal de comunicação e comércio. As pessoas que consomem mídia sem pagar não são criminosos, e sim cidadãos comuns expostos a um novo modelo de consumo, onde impera a idéia de liberdade e poder de compartilhamento. A prisão de Svartholm e Neij é válida segundo as leis de nossa sociedade, bem como seria a punição de todos os consumidores de mídia pirata. O controle e a regulamentação da internet para punição de crimes também é válido política e judicialmente. Mas este não é o mundo em que queremos viver.

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Guerra como prestação de serviço

10, abril, 2009 Bruno Sem comentários

Pela primeira vez na história, matadores de aluguel organizam-se em empresas globais que negociam diretamente com governos, facções terroristas e qualquer um disposto a pagar bem. Seu sucesso representa uma vitória do capitalismo e da terceirização, e mais uma profunda e dolorosa ferida na democracia.

Os mercenários remontam a datas tão antigas quanto os registros permitem. Um bom exemplo é o das Guerras Médicas, uma série de conflitos entre Gregos e Persas cinco séculos A.C., dos quais a Batalha das Termópilas é o mais famoso, e fonte de inspiração da H.Q. 300 de Frank Miller, bem como o filme homônimo. Nestas guerras, o rei persa Xerxes, mais de uma vez, empregou combatentes terceirizados, além de pagar a gregos por informações.

Desde então, novas e surpreendentes maneiras de lucrar com a guerra foram inventadas, em especial na primeira e segunda guerras mundiais. A primeira guerra mundial, por exemplo, trouxe o War Bond, uma ação de guerra cujo investimento é utilizado em prol da vitória. O retorno é materializado após o fim vitorioso da guerra. Mas a grande galinha dos ovos de ouro foi a segunda guerra mundial, que deixou de espólio uma dúzia de países falidos da ex-URSS com centenas de bases militares praticamente abandonadas, cada uma com toneladas de armamentos de todos os tipos. Estas armas são vendidas até hoje por comerciantes e podiam ser encontradas em quase todos os conflitos armados pós-segunda guerra, nos dois lados do campo de batalha.

Por fim, no início da década de 90, surgiram grupos armados de grande porte prontos para lutar em troca de dinheiro, ideologicamente promíscuos. Tim Spicer talvez seja o primeiro homem a criar uma empresa deste tipo, a Aegis Defence Services. Alguns grupos como este cresceram rapidamente e se tornaram empresas globais de alto faturamento com dezenas de milhares de funcionários. Seus soldados variam de principantes pobremente armados a especialistas em tecnologias de última geração. Sua estrutura é comparável com as empresas high-tech, de alta complexidade, gerenciamento moderno e foco em resultados e valorização das ações. Além disso, estas empresas são alvo constante de polêmicas, envolvidas rotineiramente em escândalos. O melhor e mais conhecido exemplo é o das torturas na prisão de Abu Ghraib do Iraque, que envolveram militares terceirizados do exército norte-americano. As pessoas foram processadas individualmente, e as empresas, imunes, continuam a fechar novos contratos com o exército estadunidense.

A sociedade parece impotente em relação às empresas militares privadas, que são enquadradas nas leis corporativas apesar da importância de seu ramo de atuação. Seus contratos são protegidos por leis e não podem ser revelados mesmo em situações críticas. A comum participação de membros do governo e do exército em seu quadro societário completam sua blindagem.

É óbvia a emergência de uma nova política social para as empresas de guerra privadas. Uma política específica, híbrida, que preveja as facilidades comerciais e contratuais às quais as empresas tem direito, e a transparência necessária ao bem da sociedade – e do próprio estado.

Leitura indicada

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A inevitabilidade do capitalismo e o milagre da tecnologia

22, março, 2009 Bruno Sem comentários

Abro um parêntese nestas mal traçadas linhas para dar lugar a um artista da palavra e do pensamento, Ferreira Gullar.

QUANDO DIGO acreditar que o capitalismo não morre, estou na verdade repetindo Karl Marx, com uma diferença, porém: para ele, como o capitalismo sai de cada crise mais vigoroso ainda, a única força capaz de liquidá-lo é a classe operária, por ele apelidada de “coveiro do capitalismo”. Como, a esta altura, a classe operária está noutra, fico só com a primeira parte da tese marxista: por si, o capitalismo não morrerá nunca.

Não estou afirmando que isso é bom ou ruim. Independentemente do que pensemos, a verdade é que o capitalismo, como planta daninha, vai se alastrando, tomando o terreno, trepando pelos troncos, sugando a seiva das árvores. Nada o detém, a não ser a sua própria voracidade, que o deixa, subitamente, sem chão e água. Aí, começa a murchar, a mixar, recuando até o ponto em que possa voltar a crescer. Como toda a sociedade depende dele, o próprio Estado lança mão de tudo para salvá-lo, com a aprovação de todos, particularmente dos trabalhadores que necessitam dele para ter emprego e salário. E começa tudo de novo.

O capitalismo não foi inventado por teóricos, nasceu espontaneamente do processo produtivo, movido pela iniciativa dos indivíduos que queriam melhorar de vida, produzir, vender, comprar, investir. Como as pessoas têm capacidades desiguais, nesse processo uns se deram melhor que outros, sendo que alguns poucos se deram muito melhor que a maioria. Por isso, o capitalismo expressa a desigualdade que caracteriza as pessoas e até mesmo as agrava. A ganância legitima toda e qualquer iniciativa, sem levar em conta que consequências terá na vida dos demais.
Enriquecer, concentrar riqueza em poucas mãos, é próprio do sistema que, em certas circunstâncias, beneficia muito a uns poucos, enquanto ignora a precária situação de muitos. O socialismo foi inventado para introduzir, no processo econômico, a justiça, a igualdade, eliminando o capitalismo. Não o conseguiu. O jeito, então, é tentar melhorá-lo, já que é impossível acabar com ele. Sonho com um milagre: que o desenvolvimento tecnológico, fazendo com que as máquinas produzam sozinhas numa escala ilimitada -já que não recebem salário, não dormem e não tiram férias- e com isso seria inevitável a distribuição gratuita do que foi produzido. A acumulação de bens chegaria a tal nível que as mercadorias perderiam o valor e o mercado deixaria de existir…

Excerto da página E13 do caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo de 22 de Março de 2009.

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